Casando à distância: noivos de países diferentes

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Texto Ana Siqueira

Conheça três histórias inesquecíveis e fique por dentro de tudo sobre a conciliação das diferenças culturais, dificuldades nos processos burocráticos e muito mais. 

Vivemos em um mundo cada vez mais globalizado, de distâncias encurtadas pela tecnologia e sentimentos que às vezes ultrapassam a capacidade das redes sociais. Hoje em dia, muitos casais se conhecem – e até começam a namorar – pela internet, mas chega um momento em que o amor fala mais alto e é preciso encontrar uma forma de dizer sim para garantir o seu “felizes para sempre”. Essa decisão vem repleta de desafios, principalmente quando se trata de noivos de países diferentes. Trabalho, família, e diferenças culturais. Quem abre mão do que? E como?

“Confiança, comunicação e cumplicidade são tudo. Se o casal enfrenta os problemas como um time, as coisas vão dando certo”, aposta a brasileira Larissa Fávero. Gabaritada no assunto, ela conheceu o belga Nicolas Vanraes durante um mochilão pela Europa e, após dois anos e meio de namoro à distância, se casou com ele e foi de mala e cuia para a Bélgica. Embora a vontade de morar juntos estivesse presente desde o início do relacionamento, o processo veio acompanhado de complexidades.

A primeira delas foi decidir que Larissa deveria terminar seus estudos em medicina antes de fazer a mudança. Agora que vive em Bruxelas há quase dois anos, ela conta que sente como se fossem apenas dois meses. “O processo de adaptação é contínuo, ainda está acontecendo. São muitas mudanças e eu estou sempre muito ativa, tentando ajeitar a minha vida por aqui e correndo atrás da minha carreira profissional”, explica.

 Noivos de países diferentes - Larissa e Nicolas - Foto: Arquivo pessoal dos noivos

Admitir os contratempos é apenas uma evidência a mais de como a brasileira não tem medo de perseguir seus sonhos. Ela diz que pulou a tradicional ordem seguida pelos médicos (faculdade – residência – emprego – bom salário – casamento) em nome do amor e não se arrepende disso. Correu atrás da equivalência de diplomas, de sua vida social e da dificuldade de se adaptar a um país com duas línguas oficiais – que não são a dela – para ser feliz ao lado de Nicolas. A equação também envolve adiar a vontade de ter filhos até que tudo esteja mais estável, mas o resultado não podia ser melhor: seu casamento está prestes a cumprir um ano e vai muito bem, obrigado.

DO FACEBOOK AO SKYPE EM TEMPO RECORDE

A união da brasileira Natalia Cardoso Perreira com o andorrano Miquel Albert Majoral também conta uma história de amor que teve início de forma inesperada. Ela vivia no Rio de Janeiro e ele em Los Angeles, mas os dois se conheceram durante uma viagem a Las Vegas. Despretensiosamente, começaram a se falar pela internet e logo conversavam todos os dias via Skype. No carnaval do ano seguinte, combinaram de passar se encontrar na Bahia, mas a ideia não foi para frente.

Até os 45 minutos do segundo tempo. Natalia não aguentou a vontade de rever Miquel, que estava em Salvador com um amigo brasileiro, e convenceu duas amigas a se juntarem a ela em um bate-volta à cidade. “Chegamos às 15h e voltamos às 6h do dia seguinte. Dispensável explicar que me senti uma louca indo encontrar um cara que havia visto uma noite na vida. Nem me lembrava se tínhamos alguma química e se estava realmente atraída por ele, mas graças a Deus confiei na minha intuição. E, bom, temos 100% de química”, lembra a carioca aos risos.

Noivos de países diferentes - Natalia e Miquel - Foto: Anderson Marcello

A partir daí, a história dos dois foi ficando séria, cada vez mais bonita e com muitas pitadas de saudade e corações apertados. O próprio Miquel não recomenda namoros à distância – a não ser que o amor seja para valer. “A distância não é boa para qualquer relacionamento. De uma maneira ou de outra, você deve ter absoluta certeza de que quer estar ao lado dessa pessoa, porque o caminho é longo e demandará muito mais maturidade e esforço do que qualquer outro relacionamento que você já teve na sua vida”, opina.

Por sorte ou destino, Natalia tinha uma viagem de estudos agendada para o mês seguinte em San Diego. Com o caminho encurtado, ficou mais fácil se encontrar com Miquel com certa frequência. Quando retornou ao Brasil, a saudade voltou a apertar. Dentro de um mês, porém, ele veio encontra-la e conhecer sua família. Antes de ir embora, os dois trocaram presentes para lá de românticos.

“Ele me deu um calendário que a cada dia tinha um post-it com uma mensagem e uma contagem regressiva para colar. E, em troca, ganhou uma agenda com contagem regressiva, mensagens e mini-presentinhos para todos os dias em que estivéssemos separados. Todo dia ligávamos o Skype para ver o outro abrir a sua surpresa do dia. Era muito divertido e acho que fez a distancia ficar leve, apesar de não ter sido fácil.”

Ao invés de retornar a San Diego para continuar seus estudos, conforme o planejado, Natalia optou por transferir sua pós-graduação para Los Angeles e o casal foi morar junto. O pedido de casamento veio depois – quando os dois já tinham morado durante nove meses no Brasil e se mudado para Andorra, país natal de Miquel – em uma viagem surpresa organizada por ele. Depois de muito tempo juntos em tanto lugares diferentes, ela conta que a relação dos dois é como se apaixonar por pessoas diferentes dentro do mesmo relacionamento.

Noivos de países diferentes - Natalia e Miquel - Foto: Arquivo pessoal dos noivos

Como ponto negativo destaca a distância que um deles sempre terá de sua família, mas os lados positivos são muitos e compensam a saudade. Parceria, cumplicidade e até um idioma próprio são apenas alguns exemplos. “Começamos falando em inglês e, depois que decidimos viver no Brasil e o Miquel passou a ser fluente no português, começamos a falar um idioma que somente nós entendíamos. Depois nos mudamos para Andorra, cujo idioma oficial é o catalão, e tentamos conversar em espanhol, segunda língua oficial do país, mas ele tem um pouco de preguiça, então continuamos com o português”, brinca Natalia.


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MIX CULTURAL 

A administradora Cindy Shimoide já morava em Nova York quando conheceu o médico – e músico! – Daniel Caplivski. Por um lado, eles não precisaram namorar à distância. Por outro, tiveram trabalho na hora de conciliar a bagagem cultural das duas famílias em seu casamento. Isso porque, apesar de brasileira, a noiva tem avós japoneses e o noivo, que nasceu nos Estados Unidos, é filho de peruanos e neto de europeus.

Eles optaram por sediar cerimônia e recepção no Brasil pela curiosidade dos estrangeiros em conhecer o país. Resultado: ao menos 50% de seus convidados vieram do exterior. “Foi um destination wedding até para minha família, que em sua maioria mora em São Paulo”, brinca Cindy. Como os noivos também não viviam no Rio de Janeiro, escolheram uma wedding planner de confiança para indicar fornecedores de qualidade. A , palco da cerimônia e da recepção, foi um deles. Por contar com decoração e buffet inclusos, os preparativos ficaram mais simples e eles só tiveram que vir ao Brasil para fazer a prova da maquiagem da noiva e dos bolos, doces e chocolates. O resto resolveram pela internet, abusando dos e-mails e do Skype.

Além de enviar os convites com cinco meses de antecedência, Cindy e Daniel trouxeram dos Estados Unidos vários itens multiculturais que deram ao casamento o tom de uma celebração de verdadeiros cidadãos do mundo. Leques japoneses com a programação da festa, buquê de origami, 1001 tsurus para dar sorte, bastões com fitas para os convidados, “saquinhos de dormir” para celulares, uísque japonês e música hava nagila. Tudo isso mesclado com uma decoração clássica e elegante para ninguém colocar defeito, além de flores de cerejeira – as sakura ou cherry blossom características do Japão, onde eles estão de férias agora.

Noivos de países diferentes - Cindy e Daniel - Foto: Marina Fava/ Arquivo pessoal dos noivos

Completando a diversidade característica do casal, eles pediram ao pastor responsável por celebrar a união que conciliasse as tradições japonesa, judaica e brasileira. Para que todos os convidados entendessem o que estava sendo dito, uma amiga da noiva deu uma forcinha e fez a tradução simultânea de toda a cerimônia. “A mescla de diversos elementos culturais e religiosos fez do casamento um evento mais interessante, prendendo a atenção dos convidados a cada acontecimento, pois havia novidade para todos”, comemora. Cindy e Daniel estão casados desde janeiro de 2015. Felizes e com muitas viagens agendadas, do jeitinho que eles gostam.

BUROCRACIA FAZ PARTE DO PACOTE

No que se refere aos processos burocráticos, ela explica que não seria necessário oficializar no Brasil a união civil realizada em solo norte-americano. O casal, porém, optou por fazê-lo porque ela queria alterar seu sobrenome também nos documentos brasileiros. Admitindo que os procedimentos são um pouco trabalhosos, a administradora dá o caminho das pedras: é preciso fazer tradução juramentada dos papeis originais, pedir equivalência da embaixada brasileira nos EUA e validação em um cartório no Brasil.

  • Tecla SAP: o brasileiro que registrar sua união fora do país não precisa – e nem deve – repetir o casamento civil por aqui. No caso de noivos que, como Cindy, queiram mudar seus sobrenomes também nos documentos nacionais, basta trazer os papeis estrangeiros – com sua devida tradução juramentada e equivalência concedida por uma embaixada brasileira – para serem validados em um cartório do país. Mas atenção: para que o casamento tenha validade em território nacional, é preciso fazer a validação dentro do prazo de 180 dias.

Noivos de países diferentes - Cindy e Daniel atualmente - Foto: Arquivo pessoal dos noivos

No caso de Larissa e Nicolas, três comemorações foram realizadas. A civil (leia-se a parte de assinar os papeis e registrar a união perante a Justiça) aconteceu na Bélgica, atual residência de ambos. A recepção foi trazida ao Brasil, para que toda a família dela pudesse estar presente, e a cerimônia religiosa se deu na Itália – sugestão da mãe do noivo, que tem uma casa na região. A ideia foi perfeita, pois coincidiu com uma viagem já agendada entre as duas famílias. História de filme, não é mesmo?

Natalia e Miquel também escolheram o Brasil como palco de sua recepção. Antes, porém, eles se casaram no civil em Andorra. As questões legais, ela conta, não tiveram nem uma pitada de romantismo. “Como vivíamos em Andorra, nos casamos no civil primeiro, principalmente pelas questões legais da minha estadia no país. Depois tivemos que legalizar a união no consulado brasileiro e posteriormente no Brasil. Foi bem chato!”, explica.

Quanto à união religiosa, seus ritos matrimoniais foram feitos em uma paróquia no Rio de Janeiro e os do Miquel em Andorra. “Depois de tudo pronto, juntamos os dois e entregamos na Igreja na qual nos casaríamos”, explica Natalia. Na ocasião, o juramento do noivo foi feito em catalão e a bênção do padre brasileiro também. Para a festa, as decisões ficaram por conta da noiva.

“No início, pensamos em inserir algumas coisas típicas dos casamentos catalães, como os drinks e a comida, mas percebemos que os convidados de fora tinham grandes expectativas em conhecer a famosa festa brasileira. Então acabamos deixando de lado a ideia e no final deu muito certo porque todos os estrangeiros adoraram!”, lembra Miquel.

Emocionaram-se com as histórias que escolhemos sobre noivos de países diferentes? Conhecem alguém que passou por uma situação parecida? Contem para a gente nos comentários!

Créditos

1 – Arquivo pessoal dos noivos | 2 – Anderson Marcello | 3 – Arquivo pessoal dos noivos | 4 – Marina Fava | 5 e 6 – Arquivo pessoal dos noivos

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