Antonio W. Neves da Rocha: ele faz A festa

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Texto Sylvia de Castro

Antonio W Neves da Rocha Foto AzsmannEle é uma unanimidade. Até os concorrentes o reconhecem como o grande nome da decoração de festas no Brasil. Antonio W. Neves da Rocha, carioca, caçula, duas irmãs, nasceu dia 16 de setembro, sob o signo de Virgem com ascendente Escorpião. Não é a toa que é perfeccionista, detalhista ao extremo e se diz um fio desencapado. Adora arte em geral, contemporânea em especial. Coleciona de tudo. Caixas de tartaruga, vaquinhas inglesas de prata, sopeiras e molheiras antigas, que traz de viagens e compra até pela internet, enfeitam cada canto do apartamento da Ruy Barbosa.

Entre as manias que tem, uma delas é andar descalço em casa. Assiste a qualquer novela para se distrair e limpar a cabeça das preocupações. Ama tanto o que faz que nem considera trabalho, de tão bom que é lidar só com coisas bonitas, comemoração, alegria. “Dá uma vibração muito boa!” Se acha um bicho do mato. Já teve fazenda em Cordeiro, depois Friburgo, e jura que ainda volta para lá. Lida melhor com bichos do que com gente. Tem três cachorros da raça inglesa, rara e chiquérrima, Cavalier King Charles Spaniel.

Não tira do dedo mínimo anel que ganhou do pai, com o brasão da família. “Em Portugal, o título de nobreza é herdado. Minha avó tinha só um filho, meu pai, que recebeu dela o título de Visconde. Aos 15 anos, eu e minhas duas irmãs ganhamos dele um anel com o brasão. Já estou no oitavo, perdi sete. Mando fazer outro, não posso ficar sem usar. Virou parte de mim”.

Decoração laranja por Antonio W. Neves da Rocha Foto Georgeana Godinho Decoração laranja por Antonio W. Neves da Rocha Foto Georgeana Godinho

Não tem rotina de trabalho. Aliás, detesta rotina. Acorda normalmente às 9 da manhã, mas se tiver que sair da cama antes, por algum compromisso, se levanta lépido e fagueiro. Entrou há pouco para o Facebook e já coleciona muitos amigos, assim como na vida. É super bem-humorado, engraçado. Quando liguei para marcar seu perfil, foi logo perguntando: “Não pode ser de frente? Não fico bem de perfil.’’ Diz que gosta mais de falar do que de ser fotografado. Mas sai bem na foto.

Cursou Administração, mais para dar um diploma para os pais. Não gostava, ia pouco à faculdade. Passava mais tempo na padaria. A primeira festa que fez foi na inauguração da casa dos amigos Sergio e Maria Helena Chermont de Brito. “Acabei a decoração da casa e Maria Helena queria fazer uma festa para mim. Eu disse que de jeito nenhum, que fizesse para inaugurar a casa. Aí, ela começou a pensar em quem decoraria a festa. Eu disse que faria. Deu tão certo que não parei mais…”

São 20 anos de trabalho e milhares de festas. Muitas boas lembranças, principalmente quando pode alegrar pessoas que passam por momentos delicados.  O que não gosta de lembrar: um cano que levou de alguém que não pagou e que incomoda até hoje. “Um trabalho enorme e ainda tive que bancar alguns fornecedores. Mas aprendi com a família de minha mãe. Diziam que tinham penas de pato. A água não penetrava. Sacudiam as mágoas, como penas, e esqueciam.”

Decoração azul e branca por Antonio W. Neves da Rocha Foto Greiffotografia.com Decoração azul e branca por Antonio W. Neves da Rocha Foto Greiffotografia.comgreiffotografia

O gosto pelas festas é herança de família. Um dom que ele fez crescer. “Tudo aconteceu naturalmente. Foi totalmente inconsciente. Fui me divertindo e, quando vi, estava fazendo isto como profissão. Minha avó, Helô Willemsens, gostava de receber. Era chiquérrima. Minha mãe Lia era também muito festeira, quase uma criança. Nos seus aniversários, na nossa casa de Carangola, dizia que eram 100 convidados, na hora apareciam 300. Eu segurava. Era mais pai do que filho. Eu nunca aprontei muito, ela aprontava.”

Para o seu trabalho, viajar é fundamental, ver coisas bonitas. Entre as suas influências, o étnico, a Inglaterra, as boates modernas de Londres, os palácios do interior da França, as exposições de arte contemporânea em Miami e Madri, feiras de casa em Milão, os catálogos, os livros.

Mestre nas misturas, a atração pelas cores vem de infância. O encantamento cresceu com as cores da Índia. Em Varanasi, a cidade onde queimam os mortos, há muita pobreza de um lado e, de outro, muita beleza e colorido, já que é a mais antiga e maior produtora de sedas da Índia. “Eu ia pelo caminho com um olho na seda, nos tons de laranja misturados a rosas, usados por Saint Laurent, que bebeu nesta fonte, outro na miséria”.

Não ter um estilo definido foi coisa que já o incomodou. Hoje, lida bem com seu jeito eclético de ser. “Estou rachado em dois. De um lado, a influência barroca; de outro, a da arte contemporânea”.

Tira férias uma vez por ano. “Paro e viajo. Vale a pena, mas não é mais como era antigamente. Ficou tenso. Chego mais cansado do que vou.” Entre as viagens inesquecíveis, Índia e Egito.

Decoração inspirada no fundo do mar por Antonio W. Neves da Rocha Foto Greiffotografia.comDecoração inspirada no fundo do mar por Antonio W. Neves da Rocha Foto Greiffotografia.com

Teve casa na serra e na praia, em Cabo Frio, e destas lembranças tira inspiração. “Sou envelopado. Para mim, tem cor do mar e cor da serra. Não consigo fazer tons terrosos na praia. Praia combina com verdes, azuis, turquesas, amarelos, tons solares. Também sigo as estações. Não vejo tons fechados, vermelhos, vinhos, no verão. Nem turquesa no frio.”

Em termos de criação, não existe nada em matéria de festas que não tenha feito e gostaria de fazer. Mas adoraria montar uma grande festa beneficente, com mesas vendidas caríssimas, nos moldes das americanas e européias, em prol da construção de uma ala de hospital por exemplo.

Para ele, o que não tem erro em matéria de decoração de festas é o less is more. “Não exagere, não force a mão se não tem segurança para isto. Aposte no correto. O chic é sempre correto. Para ousar, tem que ter mão. É como a mulher de pretinho básico: está sempre correta. Ninguém vai dizer que está mau vestida.”

“Acho que tem que ter verdade em tudo. Não dá para uma pessoa monocromática, que vive de preto e branco, fazer uma festa super colorida. Não passa verdade. As pessoas não têm que inventar, se forçar, fazer o que os outros dizem que devem fazer. Nada fake dá certo. Um dia, me perguntaram se faria uma festa numa laje, num morro. Faria. Se fosse para pessoas que vivem esta realidade. Do contrário, pegar grã fino brincando de fazer a festa numa laje ficaria complemente falso.”

Seu livro, As cores da festa, editado pela 3RStudio, vendeu mais de mil exemplares só no lançamento, que lotou o Copacabana Palace. Breve, vai lançar outro, para aproveitar o material fotográfico que tem e está sempre crescendo.

Para Antonio, o Rio é pobre em espaços de festas. “A Barra até tem, mas com estas montanhas lindas e o mar espremendo a cidade, sobra pouco: o Copacabana, o Museu Histórico Nacional, o MAM, o picadeiro da Hípica, o Forte de Copacabana… Em compensação, o Rio é poderoso em matéria de igrejas. Tem o Carmo, a Sé, a São Francisco de Paula, o Mosteiro de São Bento. Minha avó Helô e meu avô, que eu adorava, me levaram pela primeira vez ao Mosteiro de São Bento. Olhei aquele ouro todo, e disse: ‘vó, estou sentindo uma fé enorme’. Tempos depois, em Tiradentes, na  matriz de Santo Antonio, repeti para minha avó: ‘vó, você lembra?, estou com uma fé de novo’…”

Quando pensa em quanto gasta na produção das festas, às vezes se incomoda um pouco. Mas aí faz as contas das pessoas envolvidas no seu trabalho e em quantas famílias ganham direta e indiretamente dinheiro com ele. A grande maioria de seus fornecedores é do Rio. “Têm pessoas que baseiam festas no mobiliário. Eu não. Acho que o que valem são as ideias.”

Hoje, não se importa mais com as cópias de seu trabalho, como antes. Procura não ver para não sofrer. Mas não nega que se aborrece. E quando fica bravo, sai de baixo. “Dá tanto trabalho para outro vir e simplesmente fazer um xérox… Mas o que os olhos não vêem o coração não sente.”

Decoracao colorida por Antonio W Neves da Rocha - Foto Ribas Foto e Vídeo

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